“O importante é o pós-Copa”

[Por Eventpoint, 10/07/2014]
A presidente da ABEOC – Associação Brasileira de Empresas de Eventos, Anita Pires, fala sobre o Campeonato do Mundo no Brasil e dos planos de ocupação das infra-estruturas depois do evento. Em Portugal, para assistir à ExpoEventos, a responsável comenta ainda a ida de empresas de eventos portuguesas para o Brasil.

Pode traçar-nos um breve historial da ABEOC?
A ABEOC é uma associação que existe há 36 anos e que congrega empresas organizadoras de eventos e prestadoras de serviços de toda a cadeia produtiva dos eventos. Neste momento conta com cerca de 500 associados. Está presente em 14 estados do Brasil, mas tem uma actuação bastante forte no país todo. Participa nas organizações representativas no debate das políticas de turismo no Brasil, não só de eventos, mas de turismo. Temos assento no Conselho Nacional de Turismo e temos alguns projectos muito interessantes, em parceria com o SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas.
Os organizadores de eventos no Brasil são, na maioria, pequenas empresas?
Médias e pequenas. As grandes são poucas. Temos um grande desafio que é a auto-regulamentação do sector. É um sector muito solto, fragmentado. Temos desde o hotel até à empresa que contrata recepcionistas, a área de audiovisuais, os centros de eventos, e por aí fora. E o Brasil é um país muito grande, diverso, as coisas, os preços são muito diferentes. Uma coisa é São Paulo, outra é Manáus, na Amazónia, outra coisa é Santa Catarina, no sul do Brasil. Essa auto-regulamentação é muito importante porque ela vai definir algumas normas básicas.
Mas não vai fechar o acesso ao sector…

Não! De maneira nenhuma. Vai trabalhar os limites mínimos, os critérios mínimos à actuação dos profissionais, das empresas, porque isso de certa forma moraliza o mercado. Havia muita gente que não tinha o que fazer e resolveu fazer eventos.
Isso ainda é assim?
Já melhorou muito. Esse programa de qualidade que temos com o SEBRAE prevê a capacitação na gestão das empresas, ou seja do dirigente, do gestor da empresa, e prevê trabalharmos na preparação das empresas para a certificação, que é uma coisa que permite uma diferenciação no mercado.

Já existe a certificação?

Existe, mas como piloto no Estado de Santa Catarina. A auditoria é feita por uma empresa extremamente habilitada e muito respeitada que é a ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas. O que é que queremos com estas acções? Organizar o mercado, fortalecer o mercado, preparar as empresas para esse novo momento do sector de eventos e negócios do Brasil.
E como olham para a questão da formação em eventos?
Fundamental! Não basta ter um belo centro de convenções, um destino bonito, se não existirem serviços de qualidade. Um hotel pode ser de cinco estrelas, mas se não tiver um serviço cinco estrelas está a prejudicar o sector. Para nós é fundamental, tanto assim que fizemos este projecto de capacitação e estamos a discutir com as universidades o papel da academia na formação dos nossos recursos humanos. Muitas vezes a academia forma profissionais que não têm nada a ver com as nossas necessidades de mercado. Estamos com um plano bastante estratégico no sentido de aproximar o mercado da academia e vice-versa.
Enquanto presidente da ABEOC como vê o mercado de eventos brasileiro?
O mercado de eventos no Brasil está muito bem. No ano passado crescemos 13% e este ano vamos crescer em torno dos 14%, É um crescimento não só em função das transformações que o Brasil vive, no sentido do desenvolvimento económico do país, mas também pelo impacto bastante grande com a Copa do Mundo. Não que a Copa tivesse gerado para empregos ou mais oportunidades. Muito pouco. As nossas empresas são pequenas empresas e a FIFA levou para o Brasil as suas empresas de prestação de serviços. Mas aprendemos muito e ainda estamos a aprender. O importante é o pós-Copa. O governo brasileiro e os empresários fizeram um grande investimento em termos de recursos públicos e privados. Todos esses 12 estádios que foram construídos, ou reformados, os aeroportos que são fundamentais, se não tivesse existido a Copa não teríamos essas estruturas. Mas por outro lado houve um certo exagero do governo brasileiro e do sector empresarial na hora em que decidiram ter doze cidades sede. Isso significa que foram construídos estágios e centros de treino extraordinários em termos de beleza, de tamanho, e temos um desafio agora: como é que vamos ocupar esses espaços?
E como vai ser? Como vão por exemplo ocupar um espaço como o estádio de Manáus?
Manáus fica muito isolado do resto do Brasil, mas o que é a Amazónia para o mundo? É uma coisa extraordinária em termos de pesquisa cientifica, de turismo, de discussão da fauna e da flora, das possibilidades de medicamentos, da criação de novos produtos ligados à saúde. A proposta que estamos a discutir com o governo brasileiro, e agora acabando a Copa vamos começar a implementação, é a preparação de uma agenda positiva de ocupação desses espaços. Fazer em primeiro lugar um levantamento do potencial económico da região. Quando falamos da Amazónia, falamos do maior rio do mundo, de produção de peixes, turismo náutico, turismo de aventura, etc., pelo que a nossa proposta é que os Ministérios do Turismo, do Desporto, da Cultura, das Relações Exteriores, a APEX (Agência de Promoção de Exportações e Investimento), os governadores das regiões, os prefeitos dos municípios, de acordo com o potencial dessa região, construir uma politica de promoção no exterior. Esse vai ser o grande legado. Para que esses espaços não fiquem ociosos e se transformem numa ferramenta de geração de riqueza e de postos de trabalho, concertamos esse plano com o governo brasileiro. Em algumas regiões mais empreendedoras vai ser óptimo, noutras regiões em que não houver o espírito empreendedor, vai ser mais difícil.
São Paulo está na linha da frente em termos de eventos…

São Paulo recebe centenas de eventos, nacionais e internacionais. São Paulo atende a todas as necessidades das empresas, e é o grande centro financeiro e económico do país, portanto é natural que os eventos vão mais para São Paulo. Os eventos de entretenimento e religiosos vão muito para o Rio de Janeiro. O que cresce muito no Brasil são os eventos de entretenimento. Porque o povo é muito alegre, musical. A Copa está sendo um espectáculo maravilhoso, na forma de receber os turistas e os torcedores, e na forma colorida em que o país está.
Que imagem acha que o Brasil está a passar para o mundo?
Estávamos muito preocupados com isso, mas os grupos radicais resolveram cuidar do Brasil e não vender essa imagem negativa. Muitas pessoas que queriam ir ao Brasil, acabaram por não ir com medo da questão da segurança. Mas acabamos por receber mais turistas do que imaginávamos. O potencial de eventos para o Brasil é muito grande. Hoje as universidades brasileiras têm recebido muito apoio. Somos o segundo país do mundo na pesquisa na área da agricultura e geram-se centenas de eventos. E o facto das pessoas saberem onde está o Brasil, que o país recebeu a Copa, a Taça das Confederações, vai receber as Olimpiadas, que faz o Rock in Rio, mostra que o Brasil tem muito potencial.
Como vê a ida de empresas de eventos portuguesas para o Brasil?
Vejo com bons olhos. Temos muito a aprender com os portugueses e a presença das empresas internacionais no Brasil são uma oportunidade para os brasileiros e para quem vai para lá. Temos empresas de Portugal que têm uma filial no Brasil. São empresas de tecnologia, de eventos, de consultoria.
Como vê Portugal enquanto destino para eventos?
Tem um potencial muito grande, mas precisa de ser mais desenvolvido. A promoção de Portugal para fora tem de ser maior, porque o potencial é muito grande, um pouco parecido com o Brasil. Temos de preparar melhor o produto que queremos vender. Que Portugal queremos que o mundo conheça? No Brasil é a mesma coisa. Quanto melhor for a imagem, mais eventos e turistas recebemos. Podemos ser grandes parceiros e gerar negócio aqui e lá.

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