Em tom de despedida, Gastão Vieira admite que preços são maior desafio

[Por Mercado e Eventos / Valor Econômico, 17/02/2014]
Em entrevista ao Valor Econômico, o ministro do Turismo, Gastão Vieira, confirmou que está deixando o cargo e destacou suas realizações sem deixar de manifestar sua preocupação com a perda de competitividade do país em função dos altos preços praticados pelos serviços aos turistas, em especial, tarifas aéreas, gastronomia e de hospedagem. Veja o teor da entrevista:
“O ministro do Turismo, Gastão Vieira, prepara-se para deixar o cargo com uma satisfação: ter retirado a pasta das páginas policiais e conseguido reinseri-la na agenda econômica e política do país. Para o bem e para o mal. O pemedebista, que disputará em outubro novo mandato de deputado federal, tem ciência do momento em que retornará à Câmara. O Brasil consolida-se como um destino turístico caro, e, em geral, não trata como deveria os estrangeiros que desembarcam no país. A Copa do Mundo, avalia o ministro, é uma vitrine que não se repetirá tão cedo. Mas será capaz de determinar como o Brasil será visto pelo resto do mundo durante muito tempo.
Segundo o ministro, o turismo movimenta mais de R$ 50 bilhões por ano e seu peso na economia é comprovado ao se calcular a demanda anual do setor por aproximadamente 120 mil aparelhos de televisão, 9 milhões de peças de cama, mesa e banho e 75 mil unidades de frigobar, além de 202,5 mil carros para locação. No entanto, alertou, o turismo precisa transformar suas potencialidades em competitividade. Essa mudança passa por avanços na formação dos profissionais e a adoção de melhores práticas de gestão das empresas da área, mas também por uma maior conscientização do próprio turista de que não se deve adquirir produtos e serviços a preços abusivos.
“Nós nunca nos preocupamos. O turista estrangeiro tem que ser bem tratado do momento em que desembarca no aeroporto, pega o transfer e sai para fazer o passeio. Ele tem que ter uma memória inesquecível desses momentos que viveu, para que volte, convença outras pessoas a virem e fale bem do país”, disse o ministro ao Valor. “Estamos próximos de fazer isso? Não. Estamos muito distantes. O que nós temos de potencial nos falta de competitividade.”Em mais um esforço para induzir uma queda dos preços praticados no setor, o ministro pretende lançar uma campanha pelo consumo consciente. “Esse conceito de turismo caro está se consolidando. E é caro mesmo”, afirmou o ministro, para quem os empresários não devem pensar apenas no curto prazo. “Acho que essa questão de preço depende muito da ampliação da oferta, seja para passagem área, vaga de hotel ou preço de restaurante. Mas acredito também que o consumidor precisa tomar consciência de que ele tem de se recusar a pagar esses abusos.”
Vieira não vislumbra novas desonerações, mas acredita que o governo federal e os Estados deveriam reduzir a carga tributária incidente sobre o segmento. No caso dos Estados, citou como exemplo a questão do ICMS cobrado na venda de combustível de aviação. “O Brasil é um dos poucos países do mundo que não devolve nada para o turista. Aqui você não tem o ‘tax free’ em lugar nenhum. O governo terá de agir na parte tributária: o estrangeiro já paga imposto no seu país, chega aqui e paga de novo impostos que já pagou. Essa equação precisa ser invertida, precisamos ter uma ação muito direta na área tributária.” Vieira assumiu o ministério em 2011, na esteira de uma série de denúncias contra seu antecessor. À época, a pasta sequer participava das discussões de alto nível sobre a Copa do Mundo. Hoje, a vaga é alvo de cobiça na reforma ministerial e o ministro sente-se à vontade para tentar convencer o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, a abrir as contas referentes ao déficit externo do país contabilizado na rubrica “viagens internacionais”.
Para Vieira, embora o turista brasileiro gaste quase o dobro do que um estrangeiro no Brasil por causa das compras feitas no exterior, não é justo o setor ser responsabilizado sozinho por um déficit também provocado por importações feitas do Brasil em sites internacionais com cartão de crédito. “Tenho insistido com o Tombini e acho que ele está próximo de abrir essa conta, para que a gente possa ter uma ideia do que é turismo na formação desse déficit e o que são outros setores que estão nessa conta.” O ministro deixará para o sucessor algumas iniciativas engatilhadas. Uma é a articulação feita junto a deputados federais e senadores para que emendas impositivas ao Orçamento sejam direcionadas não a redutos eleitorais, mas a cidades capazes de impulsionar o turismo regional. Além disso, o ministério tem R$ 4,14 bilhões depositados na Caixa Econômica Federal à espera de projetos, ou prontos para serem liberados para o pagamento de obras que ainda não foram iniciadas ou concluídas.
Diferentemente de quando fala sobre aeroportos e hotéis, Vieira não esconde a preocupação com questões de segurança durante a realização da Copa, mas assegura que as manifestações não devem afastar turistas estrangeiros. A demanda por ingressos observada até agora é prova disso, argumentou. Além disso, o ministério tem em mãos uma pesquisa feita após a Copa das Confederações, segundo a qual a maioria dos torcedores disse que voltaria para a Copa, se pudesse.Segundo o ministro, são esperados muitos argentinos e americanos. Em relação à Europa, Vieira disse que os efeitos da crise econômica influenciarão a decisão dos torcedores. Ele vê uma boa disposição de alemães e ingleses em viajar ao Brasil para assistir aos jogos. Mesmo assim, a previsão é que 77% do público dos estádios seja brasileiro. “Tem que se entender que estamos fazendo uma Copa no Brasil, com brasileiros e primordialmente para brasileiros com nossos defeitos e virtudes. A turma fica exigindo que a gente faça uma Copa no Brasil com o espírito alemão.”

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