Braztoa Enlatada

[Artigo de Sidney Alonso – fundador e presidente da Avant Garde Participações, Panrotas, 29/04/2013]
Há pouco tempo assisti um programa no NatGeo sobre as técnicas de pesca dos golfinhos, cetáceos parentes dos mamíferos, exímios nadadores e admirados por sua grande inteligência e sociabilidade. Nadando em grupo os golfinhos identificam um cardume potencialmente saboroso e iniciam uma perseguição calculada, em movimentos circulares, levando o cardume a buscar a superfície do mar. Ao concentrarem-se num pequeno espaço próximo da superfície os peixes do cardume são surpreendidos por bolhas formadas pelas batidas das caudas dos golfinhos na água, o que acaba deixando-os atordoados e sem senso de direção. Uma vez cumprida esta fase os golfinhos vão se revezando em entradas rápidas pelo cardume, comendo dezenas ou centenas de peixes em pouco tempo, mas sem dizimar o cardume por completo, pois os golfinhos entendem que aqueles peixes que restaram serão úteis em uma ocasião futura quando a fome apertar.
As operadoras Braztoa presentes na “Vila Braztoa” durante a WTM Latin America semana passada formaram um suculento e indefeso cardume de sardinhas rodeado por golfinhos famintos. O que todos nós que estivemos lá vimos foi um massacre frio e bem calculado, uma coreografia perfeitamente articulada que serviu muito mais aos interesses de fornecedores nacionais e estrangeiros do que aos históricos propósitos das operadoras associadas.
A grande jogada da Reed que puxou uma grande quantidade “suppliers” para uma feira na América do Sul foi atrair a Braztoa para um espaço onde pudesse realizar seu tradicional encontro comercial com grandes vantagens financeiras. Com esta manobra ficaram garantidas a participação compulsória dos operadores associados e seus tradicionais agentes convidados, estes vindos aos milhares (será?) nas caravanas de outros estados, do interior e da própria capital. Como contrapartida para seu apoio a Braztoa levou seu espaço “na faixa”, apesar de ter perdido o patrocínio direto de companhias aéreas, órgãos de turismo e outras entidades, que tiveram que pagar à Reed para entrar na brincadeira, estacionados do lado de fora da”vila”. Desta forma os operadores Braztoa acabaram pagando por seus espaços como em edições anteriores, sem usufruir de qualquer benefício direto no custo de exibição. Agora vejamos, qual foi o resultado?
Bom, antes de cravar um resultado fechem os olhos e imaginem comigo: imaginem que beleza para os expositores estrangeiros e fornecedores poderem ter à sua disposição um espaço fechadinho em forma de labirinto onde entrar e caçar todos os operadores que quiserem; imaginem o brilho nos olhos dos agentes de viagens convidados da Braztoa chegando naquele enorme pavilhão cheio de stands coloridos e vistosos, vendo um monte de gente nova e bacana expondo do lado de fora da “vila”, sem precisar andar no piquete a que se acostumaram no Frei Caneca e tendo várias opções interessantes de produtos e destinos à sua disposição, muitos deles inacessíveis até agora, já que sempre foram de uso exclusivo das “forças armadas das operadoras”; imaginem o cardume dos operadores Braztoa trancafiados em seu reduzido espaço sendo massacrados por indianos, turcos, americanos, hoteleiros, representantes comerciais e “amigos” enquanto o objetivo principal de sua participação deveria ser promover seus roteiros e programas àqueles agentes dispersos todos do lado de fora, andando como crianças em uma loja de brinquedos. Agora abram os olhos!
O resultado foi espetacular, principalmente para os donos do mar (Reed), para os golfinhos (expositores) e para os peixinhos (agências visitantes) que ficaram livres vendo o cardume das operadoras preso no seu canto. Tive compaixão dos operadores Braztoa quando passei pela “vila”. Me recusei a levar qualquer material de trabalho, não quis falar de negócios (disse a alguns deles que marcássemos reuniões para as próximas semanas) e fiquei satisfeito por ter desaconselhado nossos parceiros estrangeiros a virem ao Brasil competir com os operadores Braztoa. Cheguei até a brincar que estava ali em uma “pesquisa antropológica” mas, na verdade, achei injusto vê-los acossados, limitados e ansiosos, ávidos por identificar potenciais compradores naquela massa de gente vendedora. Vários operadores me confessaram que apenas 25% dos visitantes em seus espaços eram agências, todo o resto estava ali por outros interesses, em geral para tentar vender algo.
Ao final, creio que já está sendo feita uma reflexão apurada sobre o formato adotado e quais medidas precisam ser colocadas em prática para melhorar a performance para as operadoras Braztoa, pois a sensação que captei com várias delas é que o formato desagradou e existe temor que algo semelhante possa acontecer durante a ABAV, em Setembro. Já para a Reed é incontestável que fornecedores vão adorar estar de volta no ano que vem, mas se vierem no mesmo molde a pescaria vai ser selvagem, e pode ser que com sua fome eles acabem dizimando o cardume inteiro!