Poucos setores da economia brasileira conseguem gerar impactos tão amplos quanto o de eventos. Ele movimenta negócios, cria empregos, estimula a inovação, fortalece cadeias produtivas, promove destinos, atrai investimentos e produz conexões que geram desenvolvimento. Ainda assim, permanece à margem das grandes agendas estruturantes do país.
O paradoxo é evidente: quanto mais se analisa a relevância econômica e social dos eventos, mais difícil se torna compreender por que o setor ainda não consolidou seu espaço nas políticas públicas.
Parte da resposta está na forma como os eventos foram historicamente compreendidos. Durante décadas, prevaleceu a percepção de que eram atividades complementares, associadas ao entretenimento, à promoção turística ou à celebração de datas e ocasiões específicas. Pouco se reconhecia seu papel como instrumento de desenvolvimento econômico e competitividade. Como consequência, o setor cresceu impulsionado pela capacidade empreendedora de seus atores, mas sem o correspondente reconhecimento institucional de sua relevância estratégica.
O resultado é um setor que está presente em várias políticas, mas raramente ocupa posição central em alguma delas. Outro desafio histórico foi a ausência de dados consolidados, já que, durante muito tempo, faltaram informações capazes de demonstrar com precisão a dimensão econômica, social e territorial dos eventos. Em políticas públicas, aquilo que não é medido frequentemente tem dificuldade de ser priorizado.
Nesse contexto, o III Dimensionamento do Setor de Eventos no Brasil representa um marco para a consolidação institucional do segmento. Conduzido pela ABEOC Brasil e pelo Sebrae Nacional, com execução técnica do Observatório da Indústria do Ceará (FIEC/SENAI Ceará), e construído por meio de uma ampla articulação das entidades ALAGEV, IFEA Latin America, Academia Brasileira de Eventos e Turismo, ANPPE, ABRAPE, AMPRO, UNEDESTINOS, EMBRATUR, UBRAFE, ABRAFESTA, ABRACE, ABEFORM, SINDIPROM, CETUR/CNC e FBHA, o estudo trouxe evidências robustas sobre a relevância dos eventos para a economia nacional.
Os números ajudam a dimensionar a relevância do setor. Aproximadamente 300 mil empresas integram a cadeia produtiva, responsável pela realização de 10,1 milhões de eventos por ano, mobilizando 1,7 bilhão de participações de público, gerando cerca de 12,7 milhões de empregos e movimentando R$ 813,5 bilhões em faturamento, o equivalente a 4,6% do PIB brasileiro. Poucos segmentos da economia reúnem, simultaneamente, tamanha capacidade de gerar riqueza, criar oportunidades de trabalho, impulsionar a circulação de pessoas e dinamizar economias locais e regionais.
Diante desses números, a pergunta deixa de ser por que os eventos merecem políticas públicas estruturadas e passa a ser outra: por que um setor com essa relevância ainda não ocupa posição central na agenda pública nacional?
Mais do que estatísticas, o referido estudo oferece algo essencial para o futuro do setor: visibilidade econômica. Governos formulam políticas públicas com base em evidências e, quanto mais robustas forem as informações disponíveis, maior será a capacidade de demonstrar o impacto dos eventos na geração de renda, na arrecadação tributária, na competitividade dos destinos e no fortalecimento das cadeias produtivas.
A pandemia da Covid-19 tornou essa realidade ainda mais evidente. Quando as atividades presenciais foram interrompidas, milhares de empresas e profissionais foram diretamente impactados. O período revelou não apenas a importância econômica dos eventos, mas também sua fragilidade institucional.
Ficou claro que a relevância do setor era muito maior do que sua presença nas estruturas permanentes de planejamento governamental. As medidas emergenciais adotadas naquele momento foram fundamentais para preservar empresas e empregos. Entretanto, também deixaram uma importante lição: setores estratégicos não podem depender exclusivamente de respostas emergenciais para garantir sua sobrevivência.
Foi justamente a partir desse diagnóstico que a ABEOC Brasil intensificou o diálogo institucional junto ao Congresso Nacional e a diversas instituições públicas em defesa da construção de uma política pública permanente para o setor. Nesse contexto, a entidade construiu, em conjunto com o deputado federal Luiz Gastão (PSD-CE), o Projeto de Lei nº 1.905/2026, que institui o Marco Legal dos Eventos e a Política Nacional Permanente para o Setor de Eventos.
A proposta incorpora a criação de um Sistema Nacional de Eventos, de um Observatório Nacional de Eventos para produção contínua de dados e inteligência econômica, além de programas permanentes de qualificação profissional, linhas de crédito adequadas à realidade do setor, instâncias de governança público-privada e um Plano Nacional Decenal para orientar o desenvolvimento dos eventos até 2040.
O PL nº 1.905/2026 busca enfrentar justamente a pergunta que dá título a este artigo, criando as bases para que os eventos deixem de ocupar uma posição periférica nas políticas públicas e passem a integrar, de forma estruturada, a estratégia de desenvolvimento do país. O futuro exige previsibilidade regulatória, segurança jurídica, planejamento de longo prazo e reconhecimento institucional compatível com a relevância econômica e social dos eventos.
Essa agenda não interessa apenas às empresas do setor, mas também aos municípios que desejam atrair investimentos, aos estados que buscam fortalecer suas economias e ao país que pretende ampliar sua competitividade internacional.
O Brasil já possui um setor de eventos maduro, inovador e altamente profissionalizado. O que ainda precisa amadurecer é o reconhecimento institucional de sua relevância estratégica. A boa notícia é que esse movimento está em curso. O avanço das entidades representativas, a ampliação do diálogo institucional e iniciativas como o III Dimensionamento do Setor de Eventos demonstram que o segmento tem construído, cada vez mais, os fundamentos necessários para ocupar o espaço que sua relevância econômica justifica.
O desafio agora é transformar reconhecimento em institucionalidade, pois eventos não são apenas acontecimentos, mas plataformas de desenvolvimento econômico e geração de oportunidades.
Enid Câmara de Vasconcelos
Presidente da ABEOC Brasil – Associação Brasileira de Empresas de Eventos
Fonte: Panrotas





