Grandes eventos causam impacto em Sochi, sede da seleção no Mundial

Enquanto a expectativa pela Copa do Mundo cresce na Rússia, o impacto causado por um grande evento esportivo está vivo em Sochi. A cidade que abrigará a seleção brasileira no Mundial recebe, hoje e amanhã, a reunião técnica da Fifa com representantes das 32 equipes classificadas para o torneio — o Brasil será representado pelo coordenador Edu Gaspar e por membros da comissão de Tite. Trata-se de um aperitivo, em escala bem reduzida, do furacão de câmeras e microfones que se aproxima no meio do ano. No caso de Sochi, é também um novo teste, quatro anos depois da polêmica edição da Olimpíada de Inverno.
A edição de Sochi-2014 se notabilizou, antes mesmo de começar, como a mais cara na história dos Jogos: cerca de U$ 50 bilhões (R$ 110 bilhões, na cotação da época). Opositores do presidente Vladimir Putin denunciaram superfaturamento de obras e corrupção. Quando terminou, a Olimpíada russa ficou associada às evidências de doping sistemático de atletas do país.
PROBLEMAS URBANOS
Em Sochi, porém, a percepção dos Jogos vai além do noticiário esportivo. O público total dos eventos olímpicos — 410 mil pessoas, segundo o COI — equivale ao tamanho de sua população. A tsunami olímpica, que promete ser reeditada pela Copa, atingiu de forma drástica o estilo de vida de Sochi.
— Quase não havia redes internacionais de hotéis aqui — lembra Georgy Georgiev, gerente-geral do Swissôtel Sochi Kamelia, resort cinco estrelas que hospedará a seleção. — Agora, pessoas de todo o mundo descobriram a cidade, e os russos têm vindo cada vez mais. Mesmo na baixa temporada, nosso hotel continua com lotação de cerca de 60%.
— A cidade ganhou uma nova atitude em relação ao esporte — comemora Irina Badayan, vice-reitora da Universidade Internacional Olímpica da Rússia (RIOU), projeto que faz parte do plano de legado dos Jogos. — Hoje você vê famílias inteiras subindo as montanhas para esquiar. O resort de esqui que recebeu a Olimpíada atende a pessoas normais, não atletas.
Sochi, a segunda menos populosa entre as 11 sedes da Copa (supera apenas Saransk, de 300 mil habitantes), foi atirada a outro patamar devido à magnitude dos Jogos de 2014. Quatro anos depois, ainda é comum ver prédios em construção a cada quadra na região central. Os novos apartamentos contrastam com pequenas casas de veraneio dos tempos soviéticos — as tradicionais “dachas” — que pontilham a paisagem.
Nem todos os serviços seguiram o ritmo do crescimento urbano. Transporte e limpeza de espaços públicos são elogiados por moradores. Já o atraso na construção de estações de tratamento de esgoto, prometidas para os Jogos, trouxe risco ambiental a rios como o Bzugu, que deságua perto do hotel da seleção. Dados levantados pelo portal “Caucasian Knot”, em 2016, apontam que até 70% dos detritos recebiam tratamento apenas parcial ou sequer eram tratados.
Para a moscovita Anastasia Lukasveva, de passagem por Sochi, os problemas são mais bem percebidos pelo olhar externo. Após seguidas visitas à cidade na última década, ela vê o legado com pessimismo:
— Houve muita mudança na cidade, mas é um teatro. Eu e minha família fomos às montanhas para esquiar e não havia esquis. As coisas não são reais. Quando os grandes eventos tiverem se afastado, meu medo é de que tudo se deteriore.
CAMISAS PESADAS EM CAMPO
O Estádio Olímpico, construído para os Jogos ao custo de R$ 1,4 bilhão, recebeu apenas as cerimônias de abertura e encerramento. Seu principal uso acontecerá na Copa do Mundo, recebendo potências como Portugal, Espanha e Alemanha na primeira fase. Outros aparelhos olímpicos, como o complexo de esqui de Rosa Khutor e a Arena Bolshoi de hóquei, foram destinados tanto a atletas de alto rendimento quanto à população em geral.
— O desafio é criar formas de aproveitar as estruturas. O uso dos estádios pode ser maior. O clima aqui é mais favorável do que em outros lugares da Rússia. É possível desenvolver modalidades que não sejam de inverno — avalia o chinês nascido em Hong Kong Yuen Ka-Keung, jurado de ginástica artística na Olimpíada do Rio-2016 e estudante da RIOU em Sochi.
Fonte: O Globo