Clamor pelo Centro de Convenções: trade turístico quer diálogo contra o prejuízo

[Correio24horas, 19/09/2017]
Há quase quatro anos, o fracasso no Congresso de Ginecologia e Obstetrícia devido à falta de infraestrutura adequada para receber os 6,5 mil congressistas participantes decretou que o Centro de Convenções da Bahia não tinha mais condições de continuar recebendo eventos de grande porte. De 2014 a 2017, o prejuízo pela falta de grandes eventos na cidade é estimado em R$ 200 milhões por ano.
E a perspectiva é ainda pior para o trade turístico. Considerando que a construção de um novo centro deve demorar de dois a três anos, a estimativa é que o prejuízo pode chegar a R$ 1 bilhão, segundo o presidente do Conselho Baiano de Turismo (CBTur), Roberto Durán.
É que, sem o Centro de Convenções, toda a cadeia do turismo deixa de faturar: desde o hotel ao restaurante e até mesmo o taxista, que também entra no orçamento do turista que vem para a cidade a negócios e costuma gastar mais. De acordo com a Secretaria de Turismo do Estado da |Bahia (Setur), responsável pelo equipamento, eventos estão sendo promovidos.
A possível mudança de local pode trazer ainda mais prejuízos para o entorno e, por conta disso, a comunidade local, com apoio do trade turístico, vai promover um “abraçaço” no CCB no próximo domingo.
Diálogo
Segundo o presidente da Associação Brasileira de Indústria de Hotéis – Bahia (Abih – BA), Glicério Lemos, o objetivo é abrir o diálogo com o governo do estado sobre a mudança de localização do equipamento. “O objetivo é buscar o diálogo. Nós estamos abertos para dialogar. Não queremos radicalizar nada”, pontua.
Ele lembra também do quanto foi investido por causa do CCB. “Aquilo ali foi um planejamento do estado da Bahia, que diversos setores da economia, acreditando no projeto, se estabeleceram no seu entorno. Nunca se imaginou que algum governo pudesse querer retirar de lá. São R$ 5 bilhões de investimentos ao redor do Centro. E mais de 10% desse valor foi de financiamento de bancos públicos”, afirma.
Para o secretário de Turismo da Bahia, José Alves, o diálogo está aberto com o trade, mas não é possível entrar no imóvel, que está penhorado e com obra embargada: “A gente só precisa ter o entendimento do que a gente está pensando. Isso foi pensado com muita responsabilidade, não foi da noite para o dia. Nesse momento, a gente precisa de um equipamento que coloque Salvador e o estado da Bahia de uma forma diferenciada no Brasil”.
Um estudo de viabilidade para a estruturação e desenvolvimento de concessão do Centro de Convenções já foi autorizado pelo governo. O projeto prevê que o novo CCB ocupe uma área de 230 mil m² no atual Parque de Exposições, na Avenida Paralela, com investimento de R$ 400 milhões e fique pronto até 2020. O antigo Centro ocupa 153 mil m².
Frustração
Abrir um hotel ao lado de um equipamento como o Cento de Convenções parecia uma oportunidade enorme para a empresária Lígia Uchôa, 46 anos, gestora do Salvador Mar Hotel.
“Nós viemos para cá em fevereiro de 2016 porque sabíamos que o novo Centro de Convenções seria entregue em setembro. Eu vim para cá para me beneficiar dos eventos promovidos. Se soubesse que estaria fechado, nunca teria vindo”, disse. O hotel nunca chegou a 30% de ocupação.
Até a barraquinha que fica há dois anos próximo ao ponto de ônibus do local e vende salgados sentiu o fechamento com a queda de 50% do movimento.
Mobilidade
Além do prejuízo para os estabelecimentos que ficam no entorno do CCB, Glicério Lemos aponta que a malha viária da cidade deve ser considerada para a escolha do novo local.
“Também tem a estrutura viária da cidade a ser considerada. Já fizemos grandes congressos ali (no Stiep) e nunca tivemos transtornos. Se deslocar para o Comércio, para Paralela, um grande evento, com 200 ônibus de congressistas, por exemplo, causa transtornos no trânsito”, exemplifica.
Roberto Durán, do CBTur, lembra que a proximidade com o aeroporto não deve ser o único fator em consideração para levar o CCB para o Parque de Exposições. “Não somos contra ninguém, somos a favor do mercado. O trade quer que permaneça naquela região, no eixo de todo parque hoteleiro”, afirma.
Apesar da linha 2 do metrô percorrer toda a Paralela, Durán afirma que a maior parte dos congressistas não usa esse transporte para ir a eventos. Para o secretário José Alves, a mudança deve deixar uma situação de mobilidade “bastante confortável”.
Emendas
No ano passado, a bancada baiana na Câmara dos Deputados aprovou uma emenda de R$ 100 milhões para a construção do CCB, mas até agora o valor não foi utilizado e corre o risco de ser perdido, já que o orçamento é válido até dezembro. O valor foi solicitado pelo CBTur e só pode ser liberado mediante um projeto.
“É possível construir um Centro de Convenções novo, maior, com um planejamento da economia. Mas é preciso que se indique qual seria a função desse novo equipamento, e esse é um processo demorado, que levaria uns quatro anos”, afirma o diretor técnico do Instituto de Arquitetos do Brasil – Bahia (IAB-BA), Daniel Colina.
Ainda segundo Colina, é possível se recuperar o equipamento que já existe com o dinheiro da emenda parlamentar. Mas, segundo o secretário José Alves, o dinheiro não será usado.
Um ano após desabamento, ainda não há laudo da perícia
Um ano depois que parte da fachada do Centro de Convenções da Bahia (CCB) desabou, o governo não divulgou o laudo da perícia técnica que foi realizada no equipamento. O documento apontaria as causas do acidente, além de um diagnóstico da estrutura.
Em abril deste ano, o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia da Bahia (Crea-BA) enviou um relatório para o governo sobre a situação da estrutura do CCB após o desmoronamento. “Em boa parte do Centro de Convenções existem as condições de conservação. O que nós observamos também é que havia condições de se fazer a manutenção”, observa o engenheiro Leonel Borba, da Câmara Especializada de Engenharia Civil do conselho.
Entre licitações e pequenas obras feitas pelo próprio governo, foram investidos aproximadamente R$ 15 milhões para a reabertura do CCB. O secretário de Turismo, José Alves, disse que a perícia está sendo feita.
No Parque de Exposições, administração seria dividida entre Setur e Seagri
Inicialmente, a ida do Centro de Convenções da Bahia (CCB) para o Parque de Exposições causou receio para as entidades agropecuárias, que temiam perder muito espaço para a realização de eventos. Mas após a reunião com a Secretaria Estadual de Turismo (Setur) na semana passada, o panorama se tornou mais atrativo para o setor.
Segundo Almir Lins, presidente da Associação de Criadores de Caprinos e Ovinos da Bahia (Acooba), a ida do CCB pode contribuir para a reforma que o Parque precisa. “No Parque de Exposições precisa ser feita alguma coisa, uma reforma, uma mudança, um outro modelo, ser feito um outro tipo de equipamento. O governo tem uma dificuldade tremenda para manter”, observa.
Além de ser um espaço para eventos agropecuários e do CCB, o projeto prevê a construção de um hotel, centro comercial e restaurantes. Sendo multiuso, a administração do Parque seria dividida entre a Setur e a Seagri.

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