Copa do Mundo

 
[Por FBHA, 08/03/2014]

Ele já foi um dos principais críticos da Copa do Mundo, mas as obras de mobilidade urbana e os contornos de uma nova cidade fizeram do empresário Luis Carlos de Oliveira Nigro, dono da rede de hotéis Mato Grosso e presidente do Sindicato dos Hotéis, Bares e Restaurantes, um dos grandes entusiastas à realização do Mundial em Cuiabá.
Apesar de ter a consciência de que nem todas as obras vão ficar prontas até junho do próximo ano, quando o Mundial de futebol terá início, ele acredita que trata-se de um caminho sem volta. “Pode ser que uma trincheira ou outra não fique pronta para Copa, mas o que iremos fazer com ela?  Tampar?  Acredito que nem terra para tampa-las tenhamos mais”, brinca.
Ele faz planos de usar o VLT que, no eixo aeroporto ao CPA, vai passar em frente de um dos seus empreendimentos, o Hotel Paiaguás,  como meio de locomoção, mesmo que isso leve mais três anos.
“Aqui em Cuiabá passamos muito tempo acostumados com infraestrutura precária,  e quando tivermos um padrão de cidade melhor, vamos passar a cobrar mais”.
Confira os principais trechos da entrevista concedida ao MidiaNews:
MidiaNews – A escolha das oito seleções que vão jogar em Mato Grosso na Copa deixou os proprietários de hotéis, bares e restaurantes mais otimistas?
Luis Carlos Nigro – Sim, a escolha foi boa apesar de algumas pessoas acharem o contrário, por não termos nenhum time cabeça de chave. Temos o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália, que são um público com o poder aquisitivo elevado. Além dessas, temos a Colômbia e o Chile, que são países vizinhos o que vai facilitar o acesso de quem quer vir a nossa cidade. Cuiabá apesar de num primeiro momento ter tido pouca procura pelos ingressos no primeiro lote, no segundo e terceiro lote surpreendeu. Os australianos, se não me engano, foram os que mais compraram ingressos para a Copa no Brasil. A expectativa é muito boa. A Bósnia é país novato e não sabemos ainda como é o publico, mas sei que será bom pra Mato Grosso, especialmente pelo Japão, que é um público que gosta muito de ecoturismo.
MidiaNews – O senhor acha que os turistas japoneses são o carro chefe para o turismo de Mato Grosso durante a Copa do Mundo?
Nigro – Os japoneses gostam muito do turismo e ecoturismo. Acredito que esse sorteio foi providencial.
MidiaNews – Os comerciantes, os donos de hotéis e bares já estão preparados para receber esses turistas que vem de continentes diferentes?
Nigro – Agora que temos a definição de quem vem para cá. Temos que nos preparar para esse evento. Eu acredito que um dos pontos mais complicados que vamos ter é a questão da língua falada, se bem que com o Google tradutor fica fácil entender, mas acho que a comunicação vai ser mais complicada com a Rússia, Japão, Coreia e a Bósnia. Temos que trabalhar isso e os proprietários procurar dicionário de língua com aquelas frases já prontas e ter o intérprete para trabalhar no período da Copa.
“Nós temos que explorar o turismo e nunca o turista. É só lembrar a Agrishow, em Rondonópolis. O povo de tanto explorar a feira foi embora e vai mesmo. Você chegava lá e a diária que era R$ 50 o cara queria vender por mil reais e se você comprasse os sete dias. Isso é abusivo, não existe!”
MidiaNews – O senhor já foi um crítico contumaz em relação à falta de investimentos do Governo do Estado no setor de turismo. O senhor acha que houve avanços no setor a 100 dias do início da Copa?
Nigro –  Mato Grosso foi escolhido como cidade sede em virtude de suas belezas naturais e a riqueza do Eco Turismo. Temos o maior santuário de animais e plantas do Planeta, o Pantanal, temos a Chapada dos Guimarães com suas belíssimas formações naturais e cachoeiras. Nobres, é um paraíso de águas cristalinas, águas termais e muito mais.  Todo esse potencial continua adormecido, pois na área de Turismo, o Governo pouco ou nada investiu em infraestrutura. Perdemos a grande oportunidade de ganharmos muito com a vinda desses turistas estrangeiros a Mato Grosso.
No tempo que temos, pouco se poderá fazer. Serão remendos e consertos provisórios para tentar maquiar os graves problemas que temos na área de Turismo.
MidiaNews – O setor do turismo foi deixado de lado?
Nigro – No setor de turismo avançou-se muito pouco. Melhorou o aeroporto, a mobilidade urbana, mas os nossos potenciais de turismo ainda continuam adormecidos.
MidiaNews – Nesses 100 dias que antecedem a Copa ainda é possível fazer algo para o setor de turismo?
Nigro – Se tiver possibilidade, acredito que sim, teria condições de resolver ou amenizar situações até a Copa do Mundo. Em Chapada, era resolver o problema da Salgadeira, Portão do Inferno e Mirante, que são pontos críticos. No caso da Transpantaneira, os problemas são as pontes, o patrolamento da estrada e a limpeza para tirar o mato das beiradas da estrada. Como disse anteriormente, serão remendos e consertos provisórios para tentar maquiar os graves problemas que temos na área de Turismo.
MidiaNews – Em relação à infraestrutura os hotéis estão preparados para receber esses turistas?
Nigro – Com certeza. Foram feitos investimento gigantesco na área de hotelaria, em torno de R$ 800 milhões, pela iniciativa privada, na construção e na reforma dos hotéis. Temos em Cuiabá um parque hoteleiro que não deixa nada a desejar a nenhuma outra capital do país. Após a copa teremos um parque hoteleiro novo, mobilidade urbana fantástica e aeroporto moderno e três centros de eventos de grande porte para receber grandes eventos do país. Teremos uma capital mais moderna.
MidiaNews – A quantidade de hotéis que temos hoje para a Copa do Mundo é suficiente?
Nigro – É sim. São 117 hotéis e aproximadamente 15 mil leitos. A Secopa está trabalhando com o programa cama/café cadastrando residências para hospedar esses turistas. Hoje é comum no mundo afora, em cidades de praia e grandes eventos terem esse cadastro de casas para alugar, casas de veraneio, casas que ofereçam o mínimo de conforto para que o turista possa ficar também com valor mais acessível. Não podemos fazer Copa do Mundo só com o setor hoteleiro.
MidiaNews – Como vai ficar o setor hoteleiro após a Copa?
Nigro – A nossa tábua da salvação vai ser a área de eventos. Se não captarmos eventos para Cuiabá em 2015 e 2016, a hotelaria estará perdida. O turismo de negócios e eventos representa mais de 95% das ocupações dos hotéis. Tudo você precisa vir e resolver em Cuiabá com Governo do Estado, AMM (Associação Mato-grossense dos Municípios), prefeituras, Governo Federal,  viagens de negócios, reuniões de empresas, congressos de um modo geral. Negócios e eventos são os nossos maiores foco.
MidiaNews – O governo já se atentou para esse pós-Copa?
Nigro – Acho que nem nós empresários ainda acordamos para esse pós-copa. Acho que não é só o governo, o pós-Copa depende muito mais da iniciativa privada. Nós empresários temos que nos mobilizar e trazer esses grandes eventos.
MidiaNews –O senhor acha que Cuiabá pode passar uma má impressão aos turistas pelas obras ainda em andamento, pelas notícias de atraso da entrega das obras. Isso pode refletir para o setor hoteleiro?
Nigro – Eu acredito que Cuiabá não vai deixar nada a desejar a ninguém. Vamos estar com maioria das obras acabadas na época da Copa, talvez o VLT possa não estar funcionando em grande parte, mas acredito que as obras estruturantes do VLT como os viadutos e trincheiras estarão prontos. Acho que vamos ter mais prós do que contra. Os eventos programados na cidade que devem acontecer durante a Copa vão suplantar qualquer deficiência que tenhamos.
MidiaNews – Em sua avaliação, existe áreas que o governo tem deixado de lado devido a Copa do Mundo. O que merece também a atenção?
Nigro – Acho que o principal para Copa está sendo feito, acho que no próximo ano é centrar esforços para resolver o problema da Chapada e Transpantaneira.
MidiaNews – Como os empresários donos de pousadas têm discutido essa questão da Copa do Mundo. Eles se sentem incluídos ou fora do processo?
Nigro – O governo do Estado junto com o SEBRAE fizeram algumas palestras sobre os benefícios que a Copa do Mundo trará para Cuiabá. Os empresários que vieram e participaram estão sabendo aproveitar a oportunidade. Mas muitos não participaram, e agora aos 45 minutos do segundo tempo querem reclamar que não esta acontecendo nada. Quando você quer uma coisa, você tem que correr atrás. Muitos empresários foram desestimulados pelo que se via nos noticiários. Agora que estão acordando, e vendo que a Copa vai mesmo  acontecer, os ingressos foram vendidos, o estádio vai ser entregue, os viadutos estão sendo  inaugurados, o aeroporto está sendo finalizado.
MidiaNews – Todos os empresários do ramo hoteleiro terão proveito da Copa do Mundo?
Nigro – Disso não tenha dúvida. Os que estão trabalhando sim, vão conseguir. O sol nasce para todos,  e você tem que plantar para esperar colher.
MidiaNews – Os preços dos hotéis já estão mais salgados para o período da Copa. Por que esse aumento expressivo?
Nigro – Eu classificaria o seguinte: os preços da hotelaria cadastrada com a Match estão dentro dos valores acordados há seis anos,  dentro da realidade colocada. A Match é quem vai comercializar essas diárias e elas têm uma série de produtos e serviços que agrega a esse valor de diária, por isso o sobrepreço, porque tem o valor da Match agregado. Cerca de 80% dos hotéis de Cuiabá são comercializados pela Match e ela repassa uma parte dos valores aos hotéis. Nesse período de temporada, o preço da diária de R$ 260 foi vendido em media a R$ 400  para Match. Alguns hotéis já foram notificados pelo Procon praticando diárias abusivas, mas são casos isolados. Nós temos que explorar o turismo e nunca o turista. O objetivo não é ganhar tudo de uma vez. Não é mil reais que vai te deixar mais rico. O brasileiro tem que parar de pensar em ganhar tudo hoje, tem que formar clientela e pensar no longo prazo.
MidiaNews – Já teve essa discussão entre os hotéis membro do sindicato sobre a prática de preços abusivos ao consumidor durante a Copa?
Nigro – Sim. O Sindicato orientou os empresários a não tentar ganhar tudo em dois ou três dias, mas sim a pensar no longo prazo. Quando a cidade se torna um destino turístico a exemplo de Canela e Gramado no Rio Grande do Sul ou o Rio de Janeiro, todos ganham.
“Quem vai mais ganhar com a Copa é quem tem um negócio montado, já faz bem feito e já é reconhecido pelo público de Cuiabá. Agora quem inventar de última hora algo que não sabe fazer, não adianta bancar o paraquedista na Copa”.
MidiaNews – O senhor acha que o cuiabano já entrou no espírito da Copa do Mundo?
Nigro – Acho que com essas inaugurações a população esta acordando para a Copa do Mundo. Antes era muito blábláblá e a gente não via ações e hoje a população está vendo as realizações, alguns locais que estavam interditados voltaram a ser liberados, apesar de que algumas obras ainda lentas por vários problemas que fogem controle do próprio governador ou da Secopa.
MidiaNews – No início, os empresários reclamaram muito das obras da Copa e o fato de atrapalhar a chegada de hóspedes. Hoje os empresários passaram a ser mais tolerantes com as obras?
Nigro – Todos têm sentido essa ausência do movimento, queda no faturamento. As pessoas estão conscientes que é pra um bem maior que está por vir, um mal necessário e o povo cuiabano tem sido compreensivo e você não vê revolta na população. O mesmo ocorre com os empresários. Alguns tiveram que fechar, mudar de lugar, mas sabem que é para um bem comum, algo que vai trazer no futuro um resultado positivo.
MidiaNews – Como o cidadão comum pode tirar proveito da Copa do Mundo?
Nigro – A população já ganhou em obras e mobilidade urbana até porque não são para a Copa, mas para a própria Cuiabá. Ele já ganhou em obras 50 anos em 5. Agora, tirar proveito da Copa do Mundo cada um dentro do seu nicho do mercado deve procurar oportunidades. No caso do pessoal de bares e restaurantes pode criar uma atração no seu estabelecimento nos intervalos dos jogos, divulgar nas redes sociais da Austrália, do Japão. Hoje com o poder da internet você não tem limites. Quem vai mais ganhar com a Copa é quem tem um negócio montado, já faz bem feito e já é reconhecido pelo público de Cuiabá. Agora quem inventar de última hora algo que não sabe fazer, não adianta bancar o paraquedista na Copa.
MidiaNews – O senhor está muito otimista com a Copa?
Nigro – As obras estão sendo inauguradas, mas fico triste por não vender todo o nosso potencial turístico. Para almoçar com meus pais, irei de VLT e não será necessário ir de carro, isso é impagável. Pode ser em 2015, 2016, mas vai chegar e não tem como mais voltar para trás. Pode ser que uma trincheira dessa não fique pronta para Copa, mas alguém vai ter que acabar o serviço! Acho que o próximo governador vai querer terminar o que se começou. As Associações de Moradores irão cobrar esses buracos abertos. Quando o pessoal aprender andar de VLT, vão querer que ele entre no Santa Rosa, no Tijucal, etc… Nós nos acostumamos muito fácil com as coisas boas. Aqui em Cuiabá passamos muito tempo acostumados com infraestrutura ruim, e quando tivermos um padrão de cidade melhor, vamos passar a cobrar mais.

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