A virada do setor hoteleiro

[Por AECweb, 12/09/2011]
Entre tantos compromissos assumidos pelo Brasil com a agenda da FIFA, a oferta de leitos em hotéis está se estruturando rapidamente. Mais surpreendente é que o investimento espalha-se por quase todo o território nacional e não apenas nas cidades que receberão os jogos da Copa do Mundo. Hoje, são 310 projetos hoteleiros em 22 dos 26 estados brasileiros – incluindo o Distrito Federal -, em fases que vão do estudo à execução, além de outros 11 com localização ainda indefinida. Os dados da Rede de Obras – ferramenta de pesquisa e informações da e-Construmarket – mostram que o Rio de Janeiro saiu na frente com 50 projetos, seguido por São Paulo com 46 e Minas Gerais com 32 hotéis.
Para Alexandre Sampaio de Abreu, presidente da FBHA – Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação -, esse cenário é inédito na história do setor hoteleiro. A facilidade de financiamentos oferecidos pelos bancos – BNDES e Caixa Econômica Federal – é um dos motivos para esse forte crescimento no Brasil. Segundo ele, a liderança do Rio de Janeiro no ranking de projetos decorre da percepção dos investidores do bom mercado hoteleiro que representa – hoje, o maior do país. “O segundo fator é a captação de eventos, sediando uma parte da Copa do Mundo e as Olimpíadas, acompanhado pelo grande esforço da prefeitura em montar um calendário perene de eventos, que darão sustentabilidade à rede hoteleira”, diz.
O dirigente lembra “a política inteligente adotada pela prefeitura do Rio, que oferece incentivos aos empreendedores no aspecto fiscal que desonerou a construção de prédios, a aquisição de terrenos ou o retrofit de edifícios que tenham como objetivo a operação de um hotel”. Ou seja, a operação fica isenta do ITBI – Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis – e, também, do IPTU, porém, esses empreendimentos têm que ter licença de obra até o final de 2012 e alvará de funcionamento até 2014. “Isso reforça e induz o empresário investidor a construir seu empreendimento em prazo hábil para justificar esse beneficio”, comenta, observando que foi preciso estabelecer um prazo limite para evitar um crescimento exponencial.
O crescimento igualmente importante do número de obras de hotéis em São Paulo se justifica, na opinião de Alexandre Sampaio, por se tratar de um mercado em expansão constante em função de sua própria economia e da captação de eventos. “O custo de implantação de um empreendimento hoteleiro no Rio de Janeiro é maior por causa do terreno, mas isso se dilui e o payback acaba sendo similar nos dois estados e gira em torno de dez anos”, afirma, ressaltando que a maioria dos novos projetos nos dois estados é de hotéis de padrão econômico.
Região caracterizada por um grande estoque de terrenos, a Barra da Tijuca ainda permite a construção de empreendimentos com maior envergadura e volume de quartos. “Copacabana tem tido um aproveitamento de terrenos e de prédios que podem ser modificados – um bom exemplo é de um colégio de ensino médio que passará por retrofit para se tornar um hotel. Outra área que se destaca é a portuária, que vem recebendo vários incentivos da prefeitura para sua reurbanização”, comenta Sampaio.
Segundo ele, o compromisso do Rio de Janeiro para a Copa do Mundo é de 44 mil leitos. “Hoje, há em torno de 23 mil e a intenção da prefeitura é chegar, em 2014, a 28.5 mil, além de cerca de 8,8 mil das vilas esportivas (olímpica, de juízes e de imprensa) e das 4 mil cabines de navio. Será feito todo o esforço possível para evitar esse número de cabines pela dificuldade operacional de aportar esses navios. E, provavelmente, vamos suprir essa necessidade com a construção de novos hotéis”, assegura.
O Rio tem sido objeto de estudo e de grande interesse de arquitetos consagrados mundialmente. Alexandre Sampaio revela ter sido procurado por “três ou quatro escritórios de arquitetura internacionais com interesse de estabelecer parcerias aqui”. O que o presidente da FBHA deseja é que o setor hoteleiro possa “fazer uma Copa verde”. Ele garante a tendência da arquitetura de hotéis será, portanto, moderna, bonita e sustentável. Para isso, a federação deu o primeiro passo ao lançar o Programa Pró Hotéis, que foi desenvolvido junto com empresas do tipo ‘escos’ (especializadas em eficiência energética e de água, através de contratos de performance). Ele oferece à rede hoteleira a possibilidade de contar com um projeto de consultoria de eficiência energética e uso racional da água, além dos equipamentos necessários à adequação do edifício a custos mínimos. Depois de implantado o projeto, o hotel terá uma redução de até 50% dos gastos com energia e água. Várias empresas fornecedoras estão envolvidas, desde fabricantes de elevadores à lâmpadas, e também um banco privado que faz o financiamento em condições especiais. “Outra vantagem desse projeto é que ele abre a possibilidade de o hotel obter recurso do BNDES PróCopa Turismo e, depois da obra concluída, tentar uma certificação ABNT de hotel sustentável”, diz Sampaio, antecipando que “esperamos a adesão de dezenas de hotéis num primeiro momento e, quem sabe, depois, mais de uma centena”, comemora.
Outro desejo do presidente da entidade do setor, compartilhado pelos planos do Ministério do Turismo, é ver o Brasil saltar do patamar de 5,5 milhões de turistas/ano, em que atolou nos últimos três anos, para 9 milhões em 2014. O que significa reduzir o atual déficit de US$ 8 bilhões para US$ 5 bilhões – a diferença entre o que o brasileiro deixa lá fora e o que é internado pelos turistas estrangeiros. “Temos que incorporar a vinda de estrangeiros para o Brasil como uma atividade exportadora”, diz.

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