Um ano de Covid-19 em Goiás: doença quebrou tradições e tirou a alegria dos estádios

Em março de 2020, quando se confirmaram as primeiras contaminações, em Goiânia, o parque de exposições de Nova Vila já estava preparado para receber a 75º Exposição Agropecuária de Goiás. O presidente da SGPA, Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura, Eurico Velasco relembra a frustração de ter que cancelar o evento há dois meses de sua realização.

“Já estava tudo organizado, a grade de shows, equipamentos, leilões. E de repente, nosso mundo virou de pernas para o ar como está até hoje”, afirmou Eurico.

A Pandemia também quebrou uma tradição de quase 200 anos, realizada entre o final de junho e o início de julho, a Romaria do Divino Pai Eterno de Trindade. O padre João Paulo Santos que é o reitor do Santuário admite que a não realização do evento que em 2019 contou com 3 milhões e 200 mil participantes impactou, inclusive, na espiritualidade das pessoas.

“A gente vive o ano inteiro construindo e se preparando para a festa de Trindade. São 180 anos dessa devoção e o ano que passou foi o primeiro que não pudemos realizar a nossa tão querida Romaria. Foi um impacto muito grande afetivo nos romeiros e nos devotos que vem ao santuário expressarem a sua fé. Sem sombra de dúvidas foi um prejuízo no sentido de alimentação da espiritualidade e do cultivo da fé e da esperança de muitos fiéis”, disse o padre.

No futebol, os jogos, gols e títulos aconteceram. Mas o cenário foi bem diferente do habitual. A primeira partida da decisão do campeonato brasileiro da série C, entre Vila Nova e Remo-PA aconteceu no estádio Onésio Brasileiro Alvarenga e terminou com goleada dos donos da casa por 5 a 1. As arquibancadas vazias e as bandeiras sem tremular era o contraste da vibração dos jogadores em campo. E no ambiente, o som que prevaleceu foram os das caixas de som que simulava os gritos da torcida. O presidente do Vila Nova, Hugo Jorge Bravo admite que ausência do torcedor foi um desfalque considerável.

“Perdemos nosso principal aliado que é a força da torcida e para o Vila o torcedor faz falta demais. Teve até um jogo que eu disse que queria ver se o time teria uma determinada postura, contra o Ituano, se o estádio Olímpico estivesse lotado. Os visitantes nunca tiveram tanto êxito em relação aos mandantes, como foi agora, justamente por conta dessa neutralidade”, reforçou Hugo Jorge.

Quem também sentiu a ausência da torcida durante a comemoração de um título foi o Atlético. A final do campeonato goiano de 2020 que aconteceu em Fevereiro de 2021 foi contra o Goianésia, no estádio Antonio Accioly. A fase final, prevista anteriormente para acontecer em dois jogos, foi adaptada para jogo único e o empate no tempo regulamentar por 1 a 1 levou a decisão para o pênaltis. Seria o cenário perfeito para uma comemoração histórica já que o time rubro-negro voltava a decidir uma competição em casa depois de 53 anos. Mas após o 5×3 nas penalidades, a comemoração pelo 15º título estadual rubro-negro foi restrita a jogadores e convidados em um pódio cercado por uma grade no centro do gramado, conforme relembra o presidente Adson Batista.

“Foi algo extremamente frio, né? Por que o torcedor é a razão de tudo. E a gente teve que se adaptar porque não teve outra alternativa. Pra salvar o futebol o melhor foi que acontecesse os campeonatos e foi importante a conquista do título mas o torcedor é a razão de tudo”.

 

Indefinição segue em 2021

Se no futebol os objetivos foram conquistados, com a Pecuária a realidade foi outra. A exposição de 2020 não aconteceu e a de 2021 está indefinida.

“Esse é um dos maiores eventos de Goiás e creio que está entre as duas ou três maiores exposições agropecuárias do Brasil. Durante quinze dias, movimentamos de 800 mil a 1 milhão de pessoas lá dentro do Parque. E agora estamos sem saber o que fazer, totalmente perdidos. Como vamos arriscar a saúde da população por conta de negócios? Temos que medir a questão econômica com a saúde”, afirma o presidente da SGPA, Eurico Velasco.

 

A possibilidade de não realização da festa de Trindade, pelo segundo ano consecutivo, também causa apreensão.

“O sentimento é de angústia, a romaria do Divino Pai Eterno faz parte da vida de muitas pessoas. Os carreiros, por exemplo, passam o ano inteiro se preparando e se organizando para virem para Trindade. Isso é algo que faz parte da vida e que oferece sentido para essas pessoas. E quando isso lhe é tirado causa uma angustia muito grande. Todos os primeiros domingos do mês realizamos uma celebração da novena preparatória para a Romaria. E quando falamos da possibilidade de a festa não acontecer é uma expressão de decepção”, admite o Padre João Paulo Santos.

Além do impacto social, o prejuízo financeiro causado pela ausência de público nos eventos também é outra preocupação. Sem seus torcedores nos estádios, Atlético e Vila Nova deixaram de arrecadar juntos cerca de 23 milhões de reais em 2020. Já a organização da Pecuária estima que “algumas dezenas” de milhões de reais deixaram de ser movimentados pela cadeia produtiva sem a realização da exposição.

 

Eventos on-line

 

Sem poder contar com a presença dos fiéis, em Trindade, uma alternativa buscada pelo Santuário do Divino Pai Eterno para tentar minimizar os efeitos da Pandemia foi a transmissão virtual da Romaria.

“Com a crise sanitária, a Igreja acordou para esses instrumentos que podem ser usados para a evangelização. Fizemos a Romaria de modo inverso, ao invés de as pessoas virem até aqui. O Santuário é que foi até elas por meio do rádio, da televisão e da internet. Assim a gente não rompeu o vínculo com os fieis e devotos do Divino Pai Eterno. As mídias sociais são muito importantes para manter esse vínculo. Embora separados pela distância geográfica, estamos unidos por esses meios de comunicação que temos a nossa disposição”, analisou o Reitor do Santuário.

Com as competições de futebol paralisadas durante quatro meses, os clubes tiveram que buscar fontes alternativas de arrecadação. Além de doações e da vendas de produtos, o Vila Nova também recorreu à internet para se manter de portas abertas. Durante a Pandemia, o clube organizou duas lives com cantores sertanejos.

“As lives vieram para dignificar o Vila Nova, organizamos os eventos em comemoração ao aniversário de 77 anos do clube com artistas de renome internacional. É bem verdade que a gente ainda não conseguiu potencializar e monetizar de uma forma que nossas necessidades sejam atendidas. Lógico que naquele dia conseguimos lucro e superávit. Mas por exemplo, nas transmissões de jogos pela internet é algo que ainda não nos oferece uma alternativa de receita dentro das nossas necessidades a curto e a médio prazo”, ponderou o presidente vilanovense.

 

Ciência e Fé para o retorno do público

 

Enquanto os eventos buscam se reinventar para continuar acontecendo, a esperança da volta do público de acordo com o presidente do Atlético, Adson Batista passa pela ciência.

“Vivemos um momento dificílimo e preocupante, mas vejo uma luz no fim do túnel que são as vacinas. Elas estão chegando e são a realidade pra acabar com esse vírus tão prejudicial as nossas vidas”.

O presidente da SGPA, Eurico Velasco também acredita que com a imunização da população será possível organizar a Pecuária ainda neste ano.

“Tenho fé que vai dar certo e que em outubro estaremos com essa exposição sendo realizada, até mesmo com alguns eventos musicais e a principal mostra de gado e leilões. Eu tenho muita fé que vai dar tudo certo”.

E por falar em fé, o Padre João Paulo Santos, reitor do Santuário do Divino Pai Eterno em Trindade, deixou uma mensagem de fé para finalizar esta reportagem:

Às vezes, quando passamos por momentos de dificuldade e talvez, na era moderna, este está sendo o momento mais duro pra todas as pessoas.

Até nós mesmos que temos fé questionamos sobre onde está Deus?

E se há motivos para continuar tendo o coração alegre e não andarmos encurvado por aí?

 

A resposta é sim! Deus está conosco.

 

E aproveitando esse tempo de Quaresma pra nós cristãos, católicos. Talvez, nos últimos tempos, seja a Quaresma que estamos vivenciando de modo mais profundo. Porque estamos com Jesus no calvário e atravessando com Ele. E não somente como expectadores. A dor de Jesus ao carregar a cruz, ser pregado e morrer nela. É a dor de tantas pessoas que hoje vivem em dificuldade. Aquelas que perderam seus empregos, ou que veem seu trabalho em risco. Aqueles que tinham algum negócio, mas, que por causa da pandemia possa perdê-lo ou o vê-lo ameaçado. E ainda tem as famílias que perderam entes queridos. Tudo isso causa dor e às vezes ofusca a nossa fé. Mas é nesse momento que precisamos manter os olhos fixos em Jesus e saber que apesar de tudo ele está conosco e que o amor vencerá.

Como Cristo venceu a Cruz e a morte, com ele também venceremos as dificuldades e não perderemos a serenidade, a paz e a esperança.

Portanto, coragem, mesmo que passemos pelo Vale tenebroso da morte. Deus está conosco e jamais nos abandona!”

 

 

Fonte: Sagres