Boas práticas e outras nada sustentáveis dividem o turismo no país

[Correios 24 Horas, 01/12/2014]
De acordo com o IBGE, o Brasil tem uma área territorial de 8.515.767,049 km². Um país com tamanha dimensão reúne uma diversidade de cenários sociais, econômicos e culturais.
Com o turismo não é diferente. Muitos destinos sofrem com ações desordenadas e com gestões deficientes que dificultam a atividade turística. Em contrapartida, muitos locais já se adaptaram e buscam desenvolver práticas sustentáveis.
“Um país com o tamanho do Brasil e com essas condições socioeconômicas tem diversos ‘Brasis’ dentro do Brasil”, afirmou André Coelho, consultor do Núcleo de Turismo da Fundação Getulio Vargas. Dessa forma, é possível encontrar cenários com práticas positivas e negativas, muitas vezes, no mesmo destino.
O Ministério do Turismo, em seu Estudo de Competitividade, apresentou 21 exemplos de práticas sustentáveis que foram analisadas por técnicos do ministério, Sebrae Nacional e Fundação Getulio Vargas.
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Práticas
Entre elas, o Guia de Acessibilidade Cultural da Cidade de São Paulo, que reúne informações sobre diversos pontos culturais da cidade que oferecem serviços de acessibilidade. O documento orienta o turista com as informações sobre a acessibilidade oferecida pelos espaços culturais da cidade a cada uma das deficiências. Porém, a mesma cidade precisa definir melhor as instâncias turísticas, como explica Mario Beni, professor de Turismo aposentado pela USP e membro do Conselho Nacional de Turismo do Ministério do Turismo. “As instâncias turísticas em São Paulo estão equivocadas. O problema está na aplicação dos recursos que deveriam ir para o desenvolvimento turístico e acaba sendo destinado para outras demandas, como infraestrutura, por exemplo”, falou.
Outro destino que enfrenta um grande desafio é Paraty, no Rio de Janeiro, lembrado por Alexandre Garrido, da Associação Brasileira de Normas Técnicas. Apesar de ter práticas sustentáveis e ganho prêmios, o local não conta com saneamento básico. A cidade não tem rede de esgoto e os dejetos são despejados nos rios e no mar. A cidade também não tem tratamento da destinação final do lixo da cidade, que é lançado a céu aberto em condições semelhantes a de um lixão, afetando áreas de preservação.
Porém, em Petrópolis, também no Rio de Janeiro, já existe projeto que incentiva a correta destinação e o tratamento de resíduos residenciais e de empreendimentos turísticos, incluído na lista do Estudo de Competitividade do Ministério do Turismo. Chamado de Programa de Biodigestores, o projeto já conta com cerca de 40 biodigestores implementados. Com eles, os empreendimentos aproveitam o esgoto coletado para gerar a energia que alimenta as casas de cinco bairros populares da cidade.
No Nordeste, Fernando de Noronha, em Pernambuco, é um bom exemplo da diversidade de cenários no turismo do país. O arquipélago foi lembrado pelo estudo do Ministério do Turismo através do projeto Golfinho Rotador que prestou consultoria gratuita em gestão sustentável aos meios de hospedagem, avaliando o processo de Sustentabilidade do Sistema de Hospedarias Domiciliares do local.
Mas, de acordo com Anna Carolina Lobo, coordenadora do Programa Mata Atlântica da WWF Brasil, o destino, uma área ambiental protegida, não comporta o número de visitantes e o tratamento de água e de lixo resultante desse aumento de pessoas. “Os moradores reclamam muito dos visitantes. E, atualmente, há outro problema por conta da visitação dos cruzeiros marítimos que fazem o desembarque de milhares de pessoas no mesmo período. Os turistas desembarcam no local, produzem lixo durante a visita e voltam para os cruzeiros, onde consomem tudo que precisam”, relatou.
Integração
“Não existe turismo sustentável no Brasil, essa é uma premissa”, disparou Mario Beni. Para ele, existem alguns cenários sustentáveis. Mario Beni explica que, para que haja uma atividade turística sustentável, é preciso que todos os cenários –ambiental, econômico, social, cultural, político e institucional – sejam sustentáveis.
Anna Carolina Lobo concorda, mas pondera que a diversidade brasileira não é desculpa para modelos de turismo ultrapassados. “Existem diversos destinos com diversas realidades, mas isso não é motivo para não fazer a sustentabilidade”, avaliou.
Para Anna Carolina, falta ao Brasil uma política de governo nesse segmento. “Não tem política de desenvolvimento do turismo no país. Na Nova Zelândia, o ministro do Turismo é o mesmo da Casa Civil, e ele desenvolve o turismo de forma sustentável. Aqui é diferente, esses ministérios, como o do Turismo, são deixados de lado, com menos recursos, e são usados como moeda política”, acredita.
Consciência
Para André Coelho, as práticas sustentáveis estão ligadas a uma consciência sustentável e, principalmente, a um planejamento. “É uma consciência que esses destinos precisam ter. Sustentabilidade é uma questão de gestão. É um conceito muito novo, e é mais sério do que não jogar lixo no chão, e planejamento é a palavra-chave”, alerta.
A coordenadora do Programa Mata Atlântica ainda explica que, para vencer as barreiras que impedem o turismo sustentável no Brasil, é preciso que os empresários e visitantes trabalhem a educação ambiental. “Que se ensine desde a escolha do hotel até a não deixar lixo na praia e valorizar a cultura local. É necessário fazer entender que aplicar uma gestão ambiental é um investimento que vai trazer benefícios”, afirmou. “Existem formas de se fazer turismo sustentável e ter mais lucro. Sustentabilidade é muito viável”, completou André Coelho.
O apoio do governo também foi lembrado pelo consultor da Fundação Getulio Vargas. Para André, a disparidade dos cenários é resultado dos contrastes sociais do Brasil. Com isso, os problemas ligados ao turismo são, antes de tudo, problemas sociais, econômicos e estruturais do país. “No caso do Brasil, nós temos um problema antes do turismo. O problema de saneamento de uma cidade pequena como Paraty não vai ser resolvido pela prefeitura de Paraty. Precisa de apoio estadual e federal”, contou.
Ainda assim, o cenário está mudando. “Acho que melhorou muito. As pessoas querem ser ‘sustentável’. Às vezes tem uma barreira econômica, e elas não querem perder dinheiro. Mas vejo sempre o copo meio cheio”, considerou André Coelho.