Regulamentação na indústria de Feiras

[Por Grupo Feira & Cia, 09/01/2014]
“Viramos a porcaria do pavilhão”
Arquiteto, ele fica “louco” quando é chamado de montador. Apaixonado pelo seu trabalho, acha que as empresas de construção (não “montagem”) de estandes perderam a essência do que fazem. E, inconformado, acredita que essa parte da cadeia de fornecedores da bilionária indústria de feiras de negócios— precisa de medidas emergenciais. A mais premente delas, regulamentação: “Tudo precisa de regras. Mas, para montar um estande, quais são elas?”, ele questiona. Confira os principais momentos da entrevista — ou melhor, desabafo — de Luiz Cláudio Mello, diretor da Expoinstal, empresa com mais de 25 anos de arquitetura promocional nas costas, à F&C.
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Know-how
“Sempre optei por fazer estandes de perfil modulado, pelo reaproveitamento do material. Sempre acreditei que, pela rapidez e baixo custo de montagem, seria um ingrediente interessante para se ter um custo-benefício menor e ser mais aceito no mercado. Tenho escutado das pessoas que realmente esse é o caminho.
Como os prazos de montagem estão ficando cada vez menores, há de se ter processos construtivos mais rápidos.”
Momento vivido pela indústria de exposições
“As feiras encolheram, os estandes diminuíram de tamanho… Só nossa presidente acha que não tem crise no País… Expositores diminuindo investimentos, no mínimo querendo manter o que foi feito nos últimos anos. Cada ano que passa, a mão de obra é pior, você precisa de mais gente. Os bons profissionais custam caro. Mantê-los é difícil.
Temos que nos reinventar a cada momento, pois hoje há outros meios de se comunicar e não vejo as feiras mais com o mesmo poder de atração de anteriormente.
A impressão que eu tenho é que as pessoas vão à feira para não deixar de ir. Uma coisa é dizer ‘tenho que ir à feira’, outra é ‘não posso deixar de ir à feira’.”
Briefing, concorrências, commodity…
“Às vezes eu vejo que as empresas — com exceção daqueles cujas agências (de eventos) estão à frente — fazem concorrência simplesmente por fazer. Como se pode convocar uma concorrência quando não se sabe nem explicar o briefing de um estande especial?
Sabe aquele briefing que o cara marca ‘xizinho’? Coisa mais banal de um briefing é o programa de necessidades quantitativo… Aí o cara chega lá e diz que o evento não foi bom para ele. É o fim da picada!
E (os responsáveis pelo marketing dessas empresas) falam com uma autoridade tal como que se estivessem desprezando nosso conhecimento… Porque ‘montador é montador’, virou a porcaria do pavilhão.
Nosso mercado, de arquitetura promocional, se transformou nisso. Daí, fala-se de concorrência desleal. Pois a empresa pede sem saber o que está pedindo, entende? Afinal, se você quer comprar uma Ferrari, você não chama o cara que não vende Ferrari. Isso sem falar no cara que, através do e-mail, você viu que chamou 15 empresas… Tenho a impressão que estamos virando commodity.
O mercado se encheu de empresas que fazem estandes. Pois, diferentemente da construção civil, é um segmento muito dinâmico. O dinheiro entra rápido. A cada mês você está recebendo, e muitas vezes de forma antecipada.”
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“Você diz se uma feira é boa ou não quando ela tem ou não tem bons estandes. Por que todo mundo acho o Salão do Automóvel sensacional? Porque ele tem estandes sensacionais. O único bem tangível nas feiras são os estandes, principalmente quando as empresas não têm produtos para mostrar”
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Profissão “montador”
“Eu detesto o rótulo “montador”, pois ajudou a nos rebaixar. Quando eu vou a uma reunião e sou chamado assim, fico louco. Não conseguem entender o que a gente faz. Dessa forma, virou commodity.
Por isso que as agências botaram a gente debaixo do braço. Porque agêeeeencia é agêeeeencia, né? Fazem muuuuitas coisas, são profissionais de maaaarketing, publicidaaaaade… Mas que acabaram de sair da faculdade, com seus 25 anos, e falam comigo como se eu fosse uma besta. Por quê? Porque eu sou um montador…”
Cada um no seu (metro) quadrado
“Escutei de um profissional de marketing de uma empresa norte-americana, isso em 1998, que as agências iriam desempenhar um papel fundamental nos eventos. Isso pela necessidade de centralização das empresas multinacionais, uma empresa que fizesse tudo, pois estavam enxugando seus setores de marketing e buscando parcerias que entregassem todo o pacote, inclusive o que dizia respeito à assessoria de imprensa.
Eu tenho contato com agências que estão muito mais preocupadas com o preço do que elas contratam, do que com o benefício. Então, nem a agência consegue perceber o quão importante é o nosso trabalho.
Já os promotores não estão nem aí para nós: criam a regra dos eventos sem nos consultar. O RRT (Registro de Responsabilidade Técnica) é o ‘dane-se’ do promotor. Render-se ao CREA (Conselho Regional de Arquitetura e Urbanismo) e ao CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo), mesmo sem qualquer tipo de regulamentação, foi ter esse ‘dane-se’ na mão. Pois, para se fazer estande, ou você é arquiteto, engenheiro ou paga alguém do gênero para assinar (o projeto) — o que é uma prática comum, e não só na nossa área.
O que estamos vendo hoje é que cada um tem a sua ordem. E nós estamos aqui, cabecinha baixa, e todos sendo mais importantes que nós, a ralé do pavilhão. A importância nossa, para eles, é zero.”
Perda da “essência” e “falta de regulamentação”
“O maior problema que vejo no nosso mercado é o seguinte: perdemos a essência do que a gente faz. Eu, pelo menos, considero-me uma empresa de arquitetura, porque faço projetos de arquitetura. Crio espaços que são habitados por pessoas.
Comecei a trabalhar nisso há 25 anos. Tinha acabado de sair da faculdade de arquitetura. Quando fui a uma feira, fiquei maravilhado, dado à plasticidade. Você faz arquitetura mas, no entanto, pode ‘soltar o braço’ no projeto. Trabalhei com empresas que não diziam que montavam estandes, mas os construíam. Aprendi com esses caras. A meu ver, isso foi se perdendo ao longo dos anos…
Isso também se deve por falta de uma regulamentação. Conversei a respeito com a Abrace (Associação Brasileira das Montadoras e Locadoras de Stands), nas vezes que tive contato com eles. Pois o que nós fazemos, alguém sabe responder? Fazemos arquitetura, montagem, locação…? Tem alguma regra? Afinal, tudo precisa de regras. Mas, para montar um estande, quais são elas? Onde isso está escrito?
Estamos debaixo da asa de um monte de gente. Promotor nos ignora. As grandes agências idem, os grandes publicitários, que falam com os clientes no mesmo nível… Promotor diz para a gente o que temos que fazer, as agências dizem para a gente o que temos que fazer, até as empresas de coordenação dizem para nós o que temos que fazer… Pelo amor de Deus, aonde nós chegamos?
Num mercado que não tem regras, impera a desordem. E isso é o que aconteceu com a gente. Que, por isso, tem de obedecer, ficando debaixo da asa, de todo mundo. Faço até uma observação: em algumas vezes, eu pude perceber que isso serviu para monopolizar o mercado.
Entretanto, vi numa reunião da Abrace no ExpoSystems algo muito bom: a aproximação da entidade com o CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo). A impressão que eu tenho é que, a partir de agora, o conselho que pode nos ajudar na regulamentação, e está disposto a isso.”
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“A Abrace tem pessoas com boas intenções, muita experiência, mas sem tempo. Como todos nós”
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“Falta de união”? Não só…
“A falta de união pode ser um dos motivos (de não haver a regulamentação)… Um mercado dinâmico como o nosso, como você consegue fazer reuniões freqüentes? Todas as empresas de montagem que eu conheço são familiares. Muito enxutas.
Como é que você se dispõe a sentar uma, duas, três vezes por semana se você não tem nem tempo para a família? Se trabalha em feriados e finais de semana? Não estou justificando, só acho que isso atrapalha demais.
Mas a regulamentação passa por um ponto que talvez seja o grande entrave: hoje nós estamos enquadrados em regimes de tributação — conseguidos através do Sindiprom (Sindicato das Empresas de Promoção, Organização e Montagem de Feiras, Congressos e Eventos do Estado de São Paulo) — que são interessantes. E talvez a dificuldade de se criar uma regulamentação seja exatamente essa. Hoje nós estamos sob regimes de locação, que nos permitem ter benefícios fiscais. Poderíamos dar um tiro no pé mexendo nisso…”
Desvalorização da atividade
“Outro gargalo que eu vejo é que nas próprias faculdades de arquitetura não se fala disso, de arquitetura promocional, eventos… Talvez por falta de conhecimento de quão dinâmica e lucrativa é a área. Meu filho acabou de se formar em arquitetura e não considera o que fazemos como sendo arquitetura.
Conversando com um arquiteto há pouco tempo atrás, falei o que eu fazia. Estudei não sei quantos anos em Barcelona e falou que se especializou em arquitetura efêmera, ou promocional, algo extremamente difundido na Espanha.
Na EuroShop [maior feira mundial do comércio varejista, dedicada também aos fornecedores da indústria de feiras e eventos], por exemplo, a cada esquina que você tem uma empresa especializa em projetos de estandes. Para você ver o quanto eles dão valor a esse tipo de atividade. Aqui nós viramos ‘montadoras’, debaixo da asa de todo mundo.
A partir da hora que estivermos num mercado regulamentado, profissionalizado, talvez sejamos vistos de outra forma.”