Planos em exposição: confira entrevista com a vice-prefeita de São Paulo, Nádia Campeão

[Por Feira & Cia, 22/05/2013]
O quadro que decora a parte central do gabinete da vice-prefeita de São Paulo, Nádia Campeão (PCdoB), já denota uma necessidade de mudança. Não só por vontade dela, palmeirense de coração, que diariamente convive com a pintura — abstrata, confusa e… em preto e branco. Mas, também, por ser um objeto herdado da gestão anterior, assim como os desafios não enfrentados em sua totalidade pelos outrora líderes do Executivo Municipal. Um deles, os investimentos na infraestrutura e equipamentos públicos da cidade, em especial o Pavilhão de Exposições do Anhembi — que, apesar dos claros sinais de obsolescência, concentra mais de 30% das principais feiras do Brasil e até 2016 está com 80% de sua agenda comprometida. Mesmo com o aporte de quase R$ 50 milhões para reformas já garantido pelo Ministério do Turismo a São Paulo Turismo (SPTuris), administradora do local, Nádia aposta que a saída para a “saturação” de espaços e, consequentemente, uma melhor administração do calendário de eventos na capital paulista está na construção do novo centro do exposições em Pirituba. Que, segundo promessas oficiais, sairá independentemente da Expo 2020. Como destacou o prefeito Fernando Haddad, sua vice — hoje à frente do comitê da candidatura paulistana à Expo Universal — é uma pessoa de “posições muito bem definidas” e tem vontade de fazer acontecer. Nesta entrevista, ela mostra como. Acompanhe.
Feira & Cia – O Brasil, há alguns anos, vem se tornando um dos principais destinos do mundo com relação a feiras de negócios, com posição estratégica para empresas de pequeno, médio e grande porte, de todos os países. Somente para 2013 está prevista uma movimentação de R$ 4 bilhões somente levando em consideração as 201 grandes feiras do Calendário Ubrafe — das quais 75% estão domiciliadas em São Paulo. Logo, a senhora não acha que está faltando mais ações do poder público para serem resolvidos os diversos gargalos observados nessa indústria?
Nádia Campeão – O Brasil vem descobrindo lentamente a importância dessa indústria. É um setor que o País poderia investir muito mais, e ter mais benefícios econômicos, culturais e sociais. Pegando São Paulo, por exemplo, temos coisas fabulosas para mostrar, mas ficamos com um indicador de visitação baixo levando-se em conta o tamanho da cidade. O Brasil como um todo explora pouco suas potencialidades. Isso está ligado, a meu ver, ao crescimento muito baixo do País durante um prolongado período. De uns anos para cá, que o Brasil voltou a ter um dinamismo econômico maior, era o caso de a gente dar um destaque para esse setor, que têm grandes possibilidades de rápido crescimento.
F&C – Sabe-se que o calcanhar de Aquiles de São Paulo, e não só para o trade de feiras e eventos corporativos, são a infraestrutura e a questão logística. Por exemplo, não há por aqui — como na Alemanha — transporte coletivo rápido a partir do aeroporto com destino aos centros de negócios. Quais são as metas desta nova gestão municipal com relação a esses problemas?
NC – Nós realmente ainda temos que enfrentar esse desafio relacionado à mobilidade, para as pessoas terem acesso fácil aos principais centros de negócios e turísticos das cidades. Aeroportos, portos, estradas são um problema que os governos estadual e federal estão tentando enfrentar, mas o enfrentamento vem se mostrando lento nessa área, mesmo no caso de São Paulo. Haver uma conexão entre a cidade e o aeroporto de Guarulhos, no mínimo, para não falar do aeroporto de Congonhas, já vem ocupando a agenda dos sucessivos governos e até agora não saiu. Nós fizemos há décadas uma opção pelo transporte rodoviário, e não ferroviário. Eu acho que o País paga um preço por ter aberto mão de um investimento em trilhos, ferrovia. Mas existe, fato, um projeto concreto envolvendo essa conexão com Guarulhos. A gente espera que ele saia entre a Copa e a Expo Mundial. E a Prefeitura de São Paulo também compartilha com os governos estadual e federal a ampliação do Metrô.

“A ideia do prefeito é que o Anhembi deve cumprir seu papel à altura, não fazer nada para além de suas condições estruturais, de funcionar adequadamente nos próximos sete anos”

F&C – Outro ponto que chama à atenção,por exemplo, é o padrão de qualidade do Pavilhão de Exposições do Anhembi. Ele é o maior da América Latina. Recebe as maiores feiras, tanto de âmbito nacional quanto internacional. Porém, entre outros problemas, não conta com um item básico: ar-condicionado. Existe algum plano específico para ele nesta nova gestão?
NC – A São Paulo Turismo fez uma solicitação de recursos para modernizar algumas áreas e conseguiu um aporte do Ministério do Turismo. Não é um investimento ou uma ação que possa transformá- lo completamente. Ele tem uma limitação de espaço. A ação mais efetiva é o novo centro de exposições, convenções e congressos em Pirituba, que aparece associado à Exposição Universal de 2020 — mas que guarda independência, caso a gente não consiga essa indicação. A ideia do prefeito é que o Anhembi deve cumprir seu papel à altura, não fazer nada para além de suas condições estruturais, de funcionar adequadamente nos próximos sete anos. Alguns (promotores) vão preferir o perfil do Anhembi e outros, o novo centro. Não estamos substituindo um pelo outro, e, sim, agregando um novo espaço a São Paulo. Isso não quer dizer que os outros centros que a cidade já dispõe não continuarão com suas agendas. É que teremos um centro mais amplo, moderno, climatizado, acessível e com toda a parte de comunicação muito bem situada. O Anhembi pode ser muito funcional, mas ele tem limitação de espaço para fazer duas, três coisas ao mesmo tempo. Para isso, precisaríamos duplicar o calendário.
F&C – E qual o modelo de financiamento pensado pela Prefeitura para que ele saia do papel?
NC – Através de uma parceria públicoprivada. O setor privado, por exemplo, já participa do projeto da Expo 2020, com a Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base) e a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). Todos sabem que é preciso arregaçar as mangas e começar a trabalhar para se ter um novo pavilhão. Há necessidade e a oportunidade de haver uma expansão de obras, negócios. Isso cria, desde já, um compromisso oficial do País. Mas é um empreendimento que só para a iniciativa privada enfrentar é difícil, e o mesmo ocorre levando em conta apenas o setor público. Este é um plano que está de acordo com o Plano Diretor da Cidade, que cria uma nova centralidade econômica, numa região carente de mais oportunidades. A ideia é ter projetos que se desloquem desse centro da cidade, super lotado, verticalizado, levando oportunidades para regiões onde as pessoas moram — equilibrando, assim, as oportunidades em São Paulo.
F&C – Quais serão as contribuições do governo do Estado e do governo federal para a realização desse evento?
NC – O governo federal já disponibilizou R$ 630 milhões para efetivar o projeto de Pirituba. Uma parte, nós vamos ter que usar para desapropriação do terreno, e a outra, para iniciar sua construção. O governo do Estado também já se prontificou, no seu orçamento plurianual, a entregar a Linha 6-Laranja do Metrô [programada para 2016], que chegará até Brasilândia. Além disso, o governador de São Paulo se comprometeu a construir um monotrilho ou outro sistema de menor capacidade que chegue até o local. O importante é que já temos acesso pela CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), pela estação Vila Clarice, e agora é só modernizar a linha e os trens. Por outro lado, está prevista a conclusão do Rodoanel, que vai passar muito perto, e uma alça que sairá da Rodovia dos Bandeirantes para chegar ao centro de exposições e ao parque da Expo.
F&C – A Prefeitura congelou R$ 5,2 bilhões do orçamento, ou seja, 12,3% da arrecadação estimada para este ano, com ordens para tocar apenas obras que tenham dinheiro reservado em caixa ou sejam consideradas prioridade — colidindo com as promessas de campanha, como o projeto de construir mais 84 km de corredores de ônibus. Com isso, fica a dúvida: esses recursos anunciados para a Expo 2020, de R$ 12 bilhões, estão mesmo assegurados?
NC – Vamos separar as coisas. Neste primeiro ano de gestão, a secretaria de Finanças e o prefeito tomaram decisões em cima do orçamento porque não se sabe exatamente a arrecadação que a cidade vai ter. Por isso resolveram fazer o congelamento do orçamento, para que não sejamos surpreendidos. Muitos governos fazem isso no seu primeiro ano. Quanto às nossas metas de governo, elas são para quatro anos. Quatro orçamentos. E não só os orçamentos que a cidade dispõe hoje, mas recursos estaduais e federais que estão disponíveis, e a cidade vai buscar. A Expo não vem impactando isso. Neste ano não tem desembolso de recursos, pois estamos apresentando a candidatura. No final do ano é que saberemos se vamos colocar o plano de negócios em ação ou não, da Expo e do centro de exposições. A Expo tem seu orçamento de despesas e entradas, ela é autofinanciada, auto-sustentável – vende serviços, produtos, patrocínios, ingressos. Não é um evento que entra com recursos orçamentários; tem um plano próprio. Os R$ 12 bilhões contemplam obras já previstas no orçamento da cidade — como parte do Rodoanel. Não é o orçamento da Expo. É que, quando o dossiê é apresentado aos delegados, esses valores entram no projeto.
F&C – A senhora acha que a Copa e a Olimpíada ajudam ou atrapalham o Brasil na decisão dos delegados [a ser tomada em novembro deste ano, em Paris] para a escolha da sede da Expo 2020?
NC – Eu acho que elas ajudam. Porque outros países que sediaram a Exposição Universal, a maior parte deles também fez Copa ou Olimpíada, às vezes os três eventos. Em geral, as decisões desses grandes eventos estão em locais que já se mostraram preparados para fazer. O difícil é você ganhar o primeiro. E o Brasil ter conseguido sediar a Copa e depois ganhar o direito de sediar a Olimpíada, isso ajuda muito. Mostra que o País pode, tem condições, tem empresas, tem sociedade, tem recursos. É preciso trabalhar, encarar desafios, saber fazer bem.
F&C – Por que São Paulo merece ser a eleita, em vez de Izmir (Turquia), Dubai (Emirados Árabes), Ekaterinburgo (Rússia) e Ayutthaya (Tailândia)?
NC – Nosso projeto é o que deixa o melhor legado. O projeto de Pirituba deixa um parque público grande, é o que leva um desenvolvimento econômico e social para uma região da cidade, que tem impacto na vida de mais de um milhão de pessoas. Um legado comparável ao de Lisboa (Portugal), que recuperou toda uma área urbana. Quem conhece Pirituba, Freguesia do Ó, sabe do que estamos falando. É uma região pobre, com indicadores baixos. E temos capacidade de visitação de 30 milhões ou mais de pessoas, com alguma facilidade. Coisa que não é tão simples nas demais cidades. E outra que Brasil e São Paulo são lugares que recebem bem as pessoas, culturas, de todos os lugares. Uma convivência muito forte com a diversidade. As outras cidades nem tanto, algumas com até algum tipo de problema nesse sentido. Se o que pesar forem os fatores positivos, a gente leva. E somos a única grande metrópole que está concorrendo.

“Todos sabem que é preciso arregaçar as mangas e começar a trabalhar para se ter um novo pavilhão. (…) Mas é um empreendimento que só para o setor público enfrentar é difícil”

F&C – Mas o que a capital paulista está fazendo melhor em termos de promoção que esses outros destinos?
NC – A promoção é um pouco equilibrada. Diria até que algumas tenham feito mais pela candidatura que São Paulo. Certamente, Dubai promoveu-se mais em relação aos outros — até pela realidade econômica deles. No quesito promoção, precisamos fazer mais, ganhar mais terreno. Agora, quanto ao projeto, consistência, valor, acho que a gente tem vantagens muito grandes em relação aos demais. Temos previsto um evento de grande porte em Paris, na véspera da assembleia geral do Bureau [em 12 de junho] para todos os delegados e formadores de opinião. Uma campanha diplomática muito intensa, coordenada pelo Itamaraty e que envolve a Embratur (Instituto Brasileiro de Turismo), a Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) e as embaixadas brasileiras. Também engajaremos o setor privado de São Paulo, o de feiras de negócios e o trade turístico.
F&C – Para finalizar, como foi a visita dos delegados do Bureau International des Expositions (BIE) [organizador da Expo] a São Paulo, em março?
NC – Creio que foram positivas. E não só as impressões, mas da maneira como eles se comportaram no final, com algumas declarações positivas. Pela aceitação das nossas respostas às perguntas deles, a gente conseguiu mostrar aos delegados que o projeto é consistente, que tem apoio na região, na sociedade, dos três níveis de governo e do setor privado. Um projeto que se pode confiar. Minha avaliação é que nós passamos para a outra fase.